A história de Tomás Cortes no Bairro 6 de Maio começou em 2014, pouco depois do início do semestre pós-Verão, quando pela primeira vez ouviu falar do projeto ‘Maria Ajuda Seis de Maio’. Uma aventura que marcou a sua vida e o tornou, para sempre, vizinho da estação ferroviária Santa Cruz/Damaia.

Agência ECCLESIA (AE) – Sei que esteve no Bairro 6 de Maio, em Lisboa, a fazer uma experiência de voluntariado. Como surgiu essa ideia?

Tomás Cortes (TC) – A experiência surgiu porque estou inserido no movimento Schoenstatt. Este projeto não nasce de mim, mas de outros jovens onde estava incluído. Depois de ouvir testemunhos de amigos interessei-me… Com as histórias e experiências deles, cresceu, em mim, vontade de abraçar o projeto.

 

AE – Como se chamava esse projeto?

TC – Tinha o nome de «Maria ajuda».

 

AE – Um nome sugestivo. De que forma concretizavam esse projeto e «Maria» foi ajudando o Bairro 6 de Maio?

TC – Uma característica do nosso movimento – e também de Maria – é a criação de ambientes familiares e onde as pessoas se sintam bem e acolhidas. A imagem feminina de Nossa Senhora é exemplar. A nossa ideia também não passava por grandes projetos e ambições. Apostámos numa cultura de proximidade e de acolhimento. Acima de tudo queríamos dar tempo às pessoas e fazê-las sentir bem.

 

AE – Uma atenção permanente ao outro…

TC – Atenção e valorização do outro. No fundo, era a criação de espaços para que o outro se sinta bem e se possa desenvolver. Uma das caraterísticas do bairro é ser duro, de rua, com lixo, droga e crime. Apesar destas situações havia boas pessoas. O espaço era estragado, sujo e triste. Todavia, nós – através do acolhimento – dávamos alegria às pessoas.

 

AE – No espaço estragado era difícil encontrar lugares para momentos bons?

TC – Não há dúvida que o espaço influencia e tem um papel importante nas nossas vivências. Uma criança que cresça a ver pancada e traficantes… Talvez, isso não seja o melhor para o seu desenvolvimento. Apesar de termos também famílias estáveis e felizes.

 

AE – O projeto «Maria ajuda», no Bairro 6 de Maio, consiste, essencialmente, na presença de universitários no local.

TC – Existe outra caraterística que está de mão dada com o acolhimento que é a presença constante. Às vezes perguntavam… Porque não fazem – como se faz noutros sítios – e dão explicações duas ou três vezes por semana? Nós achávamos que a presença constante e a disponibilidade para estar em todos os momentos eram fundamentais.  A presença constante abraça toda a vida da pessoa e toda a sua dinâmica.

Queríamos que a nossa presença fosse sentida… Assim tornaríamos mais forte o nosso impacto.

 

AE – E a vossa vida de estudante universitário mantinha-se no ritmo normal?

TC – Cada participante do projeto fala por si… No meu caso, não tive problema algum. Só tive de me adaptar às circunstâncias.

 

AE – É uma opção entre a vida académica e as solicitações em torno das universidades ou reservar tempo livre para quem necessita?

TC – Existem pessoas que se entregam muito às atividades da faculdade. Mas sempre gostei destas atividades e sempre estive ligado a grupo de jovens. Nunca achei que fosse incompatível. É uma dimensão da minha vida…

 

AE – Também ajudavam as pessoas no seu quotidiano?

TC – Tínhamos atividades planeadas e aquelas que surgiam na altura. Tínhamos o terço semanal onde íamos rezar a casa das pessoas e o apoio à missa. Reuniões com grupos de jovens e apoio nas explicações. Todavia, a chave de tudo isto eram os momentos que não estavam marcados. Muitas vezes deixava o estudo para uma hora depois e ia jogar futebol com eles ou brincar com a malta na rua. Através destes momentos, os laços eram fortalecidos.

 

AE – Havia tempo também para escutar as pessoas?

TC – Claro. E um sinal evidente disso são as relações que ficam mesmo depois das pessoas saírem do bairro. Mesmo não estando a viver no bairro fiquei ligado a algumas pessoas. Eu ajudei, mas as aquelas pessoas também me ajudaram a crescer através das suas experiências. Essa partilha acontece, sobretudo nos momentos não planeados.

 

AE – Depois de um ano de experiência no bairro, a imagem deste bairro transformou-se?

TC – Sim. Claro. Quando fui para lá nem fazia ideia o que era o Bairro 6 de Maio. Nem sabia que existia. Começaram a dizer-me que era um bairro de lata e para ter cuidado. Inicialmente, assustei-me um bocadinho. Eram dimensões que estavam presentes… Não posso negar e dizer que aquilo era jardim no paraíso. Mas fiquei surpreendido com a outra dimensão… A dimensão de comunidade e família que é muito forte. Espantou-me ver como as pessoas, no meio daquela confusão e dureza toda, serem exemplares. Perceber isso, foi fundamental para mudar a minha imagem do bairro.

 

AE – Com esta experiência, aconteceu-lhe alguma transformação interior?

TC – Foi uma experiência longa e rica. Acho que mudei. Fiquei com a perceção que é fundamental ter tempo para os outros e também valorizar os outros. Só assim percebemos quem são os outros. Não se deve julgar logo as pessoas. Devemos eliminar essa tentação porque não conhecemos as vivências anteriores das pessoas. Cheguei a presenciar violência entre miúdos… E perguntava porquê? Depois vinha a saber que o pai estava preso e a mãe lhe batia. Histórias familiares muito difíceis. Acho que me tornei mais humilde com estas experiências.

 

AE – No meio daqueles ventos contrários… Ainda existem pessoas com caracter?

TC – Verdade. No meio de tanta turbulência via pessoas tranquilas e despostas a ouvir os outros. Naquele bairro, recebi muito das pessoas. Ajudaram-me a crescer. O ouvir alguns elogios também causa impacto em nós. As irmãs tinham uma comunidade no bairro há 40 anos e faziam um trabalho espetacular, mas de forma discreta.

O trabalho das religiosas fez pensar no conceito de humildade e no perigo do orgulho.

 

AE – Essa via da escuta, do acolhimento e da partilha é uma forma de lhes dar esperança? Através desse trabalho constrói-se um mundo diferente?

TC – Acho que sim e sei que é por aí. Essa é a única maneira de chegar às pessoas e ter um diálogo com ganhos para os dois lados. Os programas dogmáticos e materialistas não vão ao encontro da pessoa. São ideias frias que muitas vezes não resultam. Acho que a via do desenvolvimento é a via do diálogo e o amor criado entre as pessoas. A força para superar os problemas nasce das relações entre as pessoas.

 

AE – Depois deste desafio… Outro está no horizonte.

TC – É verdade daqui a umas horas irei para Timor [A entrevista foi realizada em setembro]. Vou seis meses para o outro lado do mundo. Estou muito entusiasmado e com vontade de começar.

 

AE – O que te leva a partir?

TC – No bairro sabia ao que vinha… Para Timor, estou mais aberto e na perspetiva do encontro e conhecer novas realidades. A partilha é essencial. Pretendo fomentar esta afinidade entre Portugal e Timor. Estive na Índia a estudar e conheci lá uns seminaristas timorenses. Eles incentivaram muito… Diziam-me que os timorenses gostam muito dos portugueses. Nos emails trocados com uma religiosa de Timor, disse-lhe que pretendia ensinar português, mas estou aberto para outras necessidades: grupos de jovens; catequese…

 

AE – Expectativas pessoais para esta nova experiência?

TC – Talvez a distância criada entre o nosso quotidiano. Essa distância pode refletir um bocado sobre a nossa vida. É uma forma de pensar sobre o nosso dia-a-dia e conhecer um novo mundo. Estou expectante… 

 

Paulo Rocha

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