Octávio Carmo, Agência ECCLESIA

 

“Onde está Deus, se no mundo existe o mal, se há pessoas famintas, sedentas, sem abrigo, deslocadas, refugiadas? Onde está Deus, quando morrem pessoas inocentes por causa da violência, do terrorismo, das guerras? Onde está Deus, quando doenças cruéis rompem laços de vida e de afeto? Ou quando as crianças são exploradas, humilhadas, e sofrem – elas também – por causa de graves patologias? Onde está Deus, quando vemos a inquietação dos duvidosos e dos aflitos na alma? Há perguntas para as quais não existem respostas humanas. Podemos apenas olhar para Jesus e interrogá-lo. E a sua resposta é esta: «Deus está neles»”

(Cracóvia, Via-Sacra da JMJ, julho de 2016)

 

13 de março de 2013. No mundo das novas tecnologias, os olhos fixavam-se numa chaminé à espera de fumo branco. O anúncio do nome do sucessor de Bento XVI apanhou muitos de surpresa: cardeal Jorge Mario Bergoglio. Desde logo, o homem de branco, que se apresenta como bispo de Roma, cria impacto, assumindo o inédito nome de Francisco; é o primeiro Papa jesuíta na história da Igreja e também o primeiro pontífice sul-americano. Ali se iniciou um percurso que tem vindo a ser lido (quase exclusivamente) com chaves de leitura simplistas centradas nas dinâmicas da novidade e da polémica, da extrapolação e do alarmismo.

Estamos, muitas vezes, a fugir ao essencial, às palavras e aos gestos que têm levado à afirmação da figura de Francisco como uma voz de alcance universal, com os reconhecimentos e incómodos que isso implica. O fim de uma “lógica da trincheira”, em que as energias dos católicos se centram mais na defesa do próximo, e do próximo que sofre, do que na manutenção de posicionamentos estratégicos institucionais, requer tempo e persistência. Este pontificado procura, assim, dar continuidade e um novo sentido à presença de Jesus na história, respeitando o passado sem descurar o futuro.

Quando falo numa Igreja ferida, falo de uma Igreja que é feita de homens e mulheres, que caminham com os que estão feridos pela sociedade e pela vida, com os últimos, que são eles próprios os despojados da história. Se Deus “está neles”, como dizia o Papa, a Igreja também tem de estar, é por isso que se tem de distinguir, anunciando a sua mensagem por “contágio”, através do Bem, e não por doutrinação abstrata.

Francisco, o homem que veio do ‘fim do mundo’, tem vindo a conquistar corações e sacudir consciências, como a voz de muitos dos que não têm voz. Um Papa que talvez fosse visto por quem o elegeu como um CEO experiente, que vinha pôr a casa em ordem, mas que assumiu desde logo a urgência de ser a voz de Jesus para os dias de hoje, disposto a mudar o mundo. Estes cinco anos foram bem mais do que parece e muitas sementes agora lançadas darão fruto, a seu tempo.

 

Muitos de vós fostes despojados por este mundo selvagem, que não dá trabalho, que não ajuda; ao qual não importa se há crianças que morrem de fome no mundo; não importa se tantas famílias não têm o que comer, não têm a dignidade de levar o pão para casa; não importa que tanta gente tenha de fugir da escravidão, da fome, em busca de liberdade”

(Assis, sala do despojamento, outubro de 2013)

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