«Será que eu também sou assim, livre, diante de Deus?», questionou Francisco

Cidade do Vaticano, 28 nov 2018 (Ecclesia) – O Papa desafiou hoje a sociedade a “uma vida livre do engano das idolatrias, que tanto poder têm sobre o Homem” e apontou mesmo para a necessidade de um “transplante” para um “coração novo”.

Na habitual audiência pública de quarta-feira, que teve lugar na Sala Paulo VI, Francisco alertou que “buscar a realização pessoal nos ídolos deste mundo é algo que esvazia, que escraviza o ser humano”, e convidou cada pessoa a buscar a “libertação”, a partir de uma relação “autêntica” e “generosa” com Deus e com os outros.

“Como acontece este transplante, de um coração velho para um coração novo? Através do dom de novos desejos, atentos à Palavra, desejos novos que são semeados em nós através da graça de Deus, de modo particular através dos 10 mandamentos, e que foram concretizados por Jesus”, salientou.

O Papa argentino retomou a reflexão sobre os 10 mandamentos que tem dominado as suas catequeses, nas últimas semanas, para realçar que “o decálogo é a radiografia de Cristo”, que “não veio para abolir a lei, mas para a realizar, para a fazer crescer”.

Com Jesus, “a negatividade contida nos mandamentos – não roubar, não insultar, não matar – transforma-se em atitude positiva – amar, colocar os outros no meu coração – em desejos que semeiam positividade”.

“Com Cristo, e apenas a partir dele, o decálogo deixa de ser uma condenação e torna-se na verdade autêntica da vida humana, isto é, em desejo de amor”, frisou Francisco.

O Papa refletia sobre a importância de “uma existência livre, grata, autêntica”, marcada pela “alegria de sermos amados e de amar”, quando uma criança, um rapaz, subiu ao palanque da Sala Paulo VI e começou a brincar e a saltar à sua frente.

Totalmente despreocupado com o que estava a acontecer, ele correu para junto de um dos guardas-suíços e apertou-lhe a mão, perante o sorriso de Francisco, dos bispos presentes e de todos os peregrinos.

Nisto a mãe subiu também ao palanque para tentar trazer o filho para baixo e trocou algumas palavras com o Papa, explicando que “vinham da Argentina” e que se tratava de “uma criança autista, que não consegue falar”.

“Deixem o rapaz brincar. Ele é argentino, é indisciplinado”, brincou Francisco, que esboçou mais um sorriso quando a irmã do menino se juntou a ele no palco, perante a agitação dos seguranças, preocupados com o protocolo.

Foto Vatican Media

“Queridos irmãos, este menino não consegue falar, é mudo, mas sabe comunicar, sabe expressar-se e tem uma coisa que me deixou a pensar, ele é livre. É indisciplinadamente livre”, apontou de forma bem humorada Francisco, que deixou uma interpelação a todos os peregrinos.

“Mas é livre. E fez-me pensar…  Será que eu também sou assim, livre, diante de Deus?  Quando Jesus diz que temos de ser mais como as crianças, ele quer dizer que temos de ter a liberdade que tem uma criança, diante do seu pai. E creio que esta criança hoje fez-nos a todos uma pregação. Peçamos todos a Deus que este rapaz obtenha a graça de poder falar”, exortou.

No âmbito da aproximação do Tempo de Advento, que começa no próximo domingo, dia 2 de dezembro, o Papa pediu a todas as comunidades católicas para “se prepararem e disporem os seus corações para o acolhimento a Jesus Salvador”.

“O Natal é o encontro de Cristo com a humanidade, sobretudo com aquela que ainda hoje vive à margem da sociedade, na necessidade, no sofrimento, e no meio de tantas guerras”, recordou.

Na Praça de São Pedro prosseguem entretanto os trabalhos para a instalação do presépio deste ano no Vaticano, que tem a particularidade de ser feito de areia.

Desde segunda-feira que três artistas trabalham neste projeto, e quem passa junto ao local já consegue vislumbrar, através dos taipais que circundam o presépio, a imagem de um Menino Jesus esculpido em areia, e outros elementos que tradicionalmente constituem esta representação do Natal.

Refira-se ainda que ao lado do presépio já está também a árvore de Natal que vai abrilhantar as celebrações deste ano, um grande abeto vermelho com 23 metros de altura e 4,5 toneladas de peso, proveniente da comuna de Pordenone, da região de Friuli Veneza Giulia, situada no nordeste de Itália.

JCP

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