Acordo com autoridades chinesas é visto como «avanço», após anos de diálogo

Lisboa, 25 set 2018 (Ecclesia) – O Papa Francisco afirmou hoje que o recente acordo provisório entre a Santa Sé e a China representa um avanço, precisando que a nomeação de bispos é da sua exclusiva responsabilidade.

“Existe um diálogo sobre eventuais candidatos, estas coisas fazem-se em diálogo, mas quem nomeia é Roma, nomeia o Papa, isto é claro”, referiu, em conferência de imprensa, durante o voo de regresso ao Vaticano desde Talin, no final da viagem de quatro dias aos países bálticos.

Questionado sobre críticas surgidas por responsáveis da Igreja Católica na China, que consideram o acordo um desrespeito pela história das comunidades ‘escondidas’ – fiéis a Roma, fugindo ao controlo do regime comunista -, Francisco convidou a rezar “pelo sofrimento dos que não entendem ou que têm às costas muitos anos de clandestinidade”.

“Sabeis que, quando se faz um acordo de paz ou uma negociação, as duas partes perdem alguma coisa. É esta a lei: as duas partes. Avançamos. Aqui avançamos com dois passos em frente, um para trás”, referiu.

O acordo assinado no último sábado, sobre a nomeação de bispos para as comunidades católicas na China, permitiu que todos os prelados do país estejam agora em comunhão com o Papa.

“O acordo foi assinado por mim”, sublinhou Francisco, após um trabalho de mais de 10 anos, sem lugar a “improvisos”.

“Eu sou o responsável”, insistiu.

O Papa precisou que o processo decorre “há anos”, tendo como pano de fundo a nomeação dos bispos.

“O tempo de Deus é semelhante ao tempo chinês, lentamente… Isto é sabedoria, a sabedoria dos chineses”, observou.

O pontífice disse ter estudado a situação dos bispos, caso a caso, revelando que a o levantamento da excomunhão de oito bispos escolhidos por Pequim, sem aprovação pontifícia, no passado, foi uma decisão pessoal.

Os católicos que sofreram sob o regime comunista da China, acrescentou, “têm uma grande fé,

“Escrevem-me, fazem-me chegar mensagens para dizer que aquilo que a Santa Sé, aquilo que o Papa declara, é o que afirma Jesus”, relatou.

Francisco recordou aos jornalistas exemplos históricos como os padroados, quando “os reis de Portugal e Espanha nomeavam os bispos, o Papa apenas dava a jurisdição”, ou o caso do Império Austro-Húngaro.

“Eram outros tempos; graças a Deus, não se repetem”, realçou.

O Vaticano anunciou a 22 de setembro a assinatura de um “acordo provisório” entre a Santa Sé e Pequim, relativo à nomeação de bispos para as comunidades católicas na China, o primeiro do género assinado entre as duas partes.

“[O acordo] trata da nomeação dos bispos, questão de grande relevo para a vida da Igreja, e cria condições para uma mais ampla colaboração a nível bilateral”, precisa uma nota de imprensa, divulgada pelos serviços de informação do Vaticano.

As relações diplomáticas entre a China e a Santa Sé terminaram em 1951, após a expulsão de todos os missionários estrangeiros, muitos dos quais se refugiaram em Hong Kong, Macau e Taiwan.

Em 1952, o Papa Pio XII recusou a criação de uma Igreja chinesa, separada da Santa Sé [Associação Patriótica Chinesa, APC] e, em seguida, reconheceu formalmente a independência de Taiwan, onde o núncio apostólico (embaixador da Santa Sé) se estabeleceu depois da expulsão da China.

A APC seria criada em 1957 para evitar “interferências estrangeiras”, em especial da Santa Sé, e para assegurar que os católicos viviam em conformidade com as políticas do Estado, deixando assim na clandestinidade os fiéis que reconheciam a autoridade direta do Papa.

Pequim só reconhecia os bispos nomeados pela APC; os bispos nomeados diretamente pelo Vaticano foram, muitas vezes, perseguidos e presos pelas autoridades.

OC

China: Vaticano e Pequim assinam documento inédito sobre nomeação de bispos

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