A frase é de Catarina Dias que agora gere o programa de voluntariado no Gabinete de Desenvolvimento do Aluno, da Faculdade de Economia e Gestão, da Universidade Nova de Lisboa. Antes e depois foi para o terreno em experiências de voluntario e doação aos outros em Benguela, Angola, entre 2010 e 2012. Já este ano fez uma pausa na vida profissional e esteve dois meses em Atenas ao serviço dos requerentes de asilo, migrantes forçados. A servir os refugiados porque “um voluntário é alguém que está atento aquilo que se passa à sua volta”. Uma entrevista realizada no âmbito do Dia Internacional do Voluntariado que se assinala no próximo dia 5 de dezembro.

Agência ECCLESIA (AE) – Vamos começar pelo seu início, quando percebeu a primeira vontade de fazer voluntariado. Consegue identificar?

Catarina Dias (CD) – Sou voluntária desde muito cedo porque comecei como animadora dos grupos de jovens do Campo Grande (Lisboa), fazia parte dos grupos desde os 14 anos, e fui animadora voluntária durante 10 anos. Desde então sempre tive um prazer enorme em trabalhar de graça, digamos assim.

Para mim ser voluntário não basta ter um coração muito grande ou muito boa-vontade é preciso formação, investir competências, levar tão a sério como se fosse um trabalho. Porque as responsabilidades e o que se pretende fazer também será muito sério. Na minha opinião é preciso ser algo que se leva muito a sério, que se investe.

AE – O voluntário não é só um voluntarista?

CD – Não. Um voluntário é alguém que está atento aquilo que se passa à sua volta, que deixasse sensibilizar, deixasse tocar por essa realidade e que se recusa a não fazer nada, a ser indiferente. Fá-lo de graça, tem muitas outras recompensas mas não tem a recompensa monetária.

AE – Um trabalho gratuito, como referiu, que coloca no centro a pessoa?

CD – Sim, também há pessoas que fazem voluntariado na área do ambiente e dos animais…

AE – Ou em tarefas burocráticas…

CD – Exatamente.

AE – Mas no seu caso especifico tinha de ser com pessoas?

CD – Eu gosto de estar no meio das pessoas, com as pessoas e trabalhar para as pessoas que apresentam alguma vulnerabilidade ou vivem uma situação muito complicada e muito difícil da sua vida e onde acho que faz sentido que possa ser útil. Onde me sinta mais útil também. O meu voluntariado tem sido todo com pessoas. Sou assistente social.

AE – Sempre com esta componente cristã?

CD – Sim, eu venho de uma família que é metade agnóstica e metade ateia…

AE – O que é um grande desafio?

CD – Sim, digo sempre que a minha família é das que mais me ajudam a ser cristãs e católica. Como são pessoas, os meus irmãos e os meus pais, não ligam muito a estas coisas, têm uma ideia um bocadinho dura da Igreja Católica e já que me assumo como Cristã Católica, que seja coerente.

AE – Tem de estar muito certa das razões da sua fé.

CD – Praticar, acima de tudo. Para eles não basta só a pessoa ter um palavreado muito bonito, é mais importante praticar do que falar muito.

 

AE – Isso tem-na desafiado ao longo da sua vida cristã, procurar motivos para a sua fé e ações concretas?

CD – Sou cristã, sou católica também porque cresci na fraternidade Missionária Verbum Dei que me apresentou Deus e deu oportunidade de crescer na relação com Deus. Sou Cristã Católica pela experiência de viver, de me sentir acompanhada. Nunca me senti sozinha, por muito que tenha muitas relações à minha volta, por ter a experiência que há alguém que me conduz e desafia também. Por isso, com muitas ou poucas razões o mais importante é a experiência afetiva. Da fé afetiva e também de ter, ao mesmo tempo, na minha vida, sentido que valia a pena acreditar num Deus como o pai de Jesus.

AE – Sente que o voluntariado de cariz católico é diferente do voluntariado, por exemplo, do voluntariado no Gabinete de Desenvolvimento do Aluno onde trabalha agora na Faculdade de Economia e Gestão, da Universidade Nova de Lisboa?

CD – O programa do voluntariado – primeiro não tem nenhuma conotação nem religiosa, nem política. Depois tem outra característica muito interessante, as pessoas quando se candidatam é voluntariamente, não há nenhuma obrigatoriedade e cada um vai com a sua motivação pessoal, que não é melhor, nem pior do que outras. Isso é importante. Nunca sabemos como experiência o que é que marca a pessoa e por muito que às vezes os alunos procurem o programa que é bonito ter no CV que se fez voluntariado e, agora, as empresas supostamente valorizam imenso, a verdade é que se disponibilizam. Nunca se sabe o que da experiência fica e o que vai marcar aquele aluno ou aluna, e nunca se sabe se mais tarde dá uma volta na vida, se abre a outras realidades e orienta a sua carreira profissional não para o topo dos topos, mas para colocar-se ao serviço dos outros através de gestão, de economia…

AE – E mais sensível à necessidade dos outros?

CD – Sim, por isso não há umas motivações mais certas ou erradas. Cada um tem a sua e o que sinto, se olhar para a minha vida, faz toda a diferença fazer voluntariado tendo uma componente espiritual e católica e cristã. Nas situações em que estive, faz toda a diferença sentir-me enviada não só por uma organização, mas por outro, por Deus. Nas horas difíceis a quem a pessoa se agarra é à fé. Nunca fui sozinha, mas a verdade é que faz toda a diferença na forma de olhar os outros, ter tido clareza para perceber qual era o meu papel nestas situações. Haver um outro que envia, não vou só por mim e pelas minhas forças e pelo que acho interessante. Há uma companhia que é muito importante.

AE – Estava a trabalhar quando se despediu para partir em missão com os Leigos para o Desenvolvimento, uma organização católica não-governamental para o desenvolvimento. O que a motivou a mudar de vida?

CD – Quando estava a fazer a formação com os Leigos, de sensivelmente 9 meses, e estava a trabalhar na Misericórdia de Lisboa, pedi uma licença sem vencimento e percebi que não iam dar, e confirmou-se. Foi em 2009/10 era uma altura de crise e a política era essa mas, na altura, na fiquei muito chateada, como queria tanto ir. E ter a confirmação que os Leigos me tinham selecionado para ir, não me custou de todo despedir-me. Senti que o caminho era por ali. Também é verdade que arrisquei nesta missão porque não estava satisfeita com a forma de ser Assistente Social naquele sítio específico, não era a minha pele, ser assistente social era outra coisa diferente, não era daqueles moldes. Não foi assim tão difícil.

 

 

Da formação em Portugal à missão no terreno em Angola

AE – Esteve durante dois anos como voluntária em Benguela com os Leigos para o Desenvolvimento. A formação de nove meses é fundamental para que o voluntário possa partir mais consciente do que vai encontrar e da transformação que vai sentir?

CD – Sim, a formação é longa, mas é um caminho para que cada um possa discernir se a missão é para si, qual é a sua motivação, se é para África que querem ir, se é com a organização que querem estar, porque tem uma forma de estar muito própria, como qualquer uma, e se de facto Deus o chama a ir por ali. A missão pode não ser fora de casa, fora do país. Este tempo é fundamental para as pessoas perceberem isso. Também é muito rico em que as pessoas se conhecem a si próprios. Alguns têm mais experiência outros menos mas todos abrem-se à relação com Deus e à construção de quem é Deus e alimentar esta relação. Os voluntários ganham muitas ferramentas a nível do discernimento espiritual, comunitário, da tomada de decisões. Aprofundam uma parte de relação com os outros, conhecem-se a si e aos outros, e de construção da comunidade.

Há uma parte final que são os projetos dos Leigos – organização, princípios, valores – e depois há uma outra dos projetos, o que é que fazem exatamente. O mais importante não é que a pessoa tenha aprendido muitas técnicas ou que saibam gerir projetos ou coordenar. O mais importante é que consiga discernir concretamente se é com esta organização e se a sua missão é por aqui que quer fazer esta missão que é um ano em África no meio das pessoas, com as pessoas, a trabalhar para as pessoas e com elas e em comunidade. Um ano a viver com pessoas que não são da nossa família… Só no fim é que se sabe com quem vamos e muitas vezes nem partilhamos o caminho ao longo do ano, porque existem três núcleos dos Leigos a nível nacional. É preciso muito preparação e disponibilidade. Não só para perceber os caminhos internos mas também para abrir-me, acolher, aceitar o outro como é e aprender a vivermos bem nas nossas diferenças e naquilo que nos une.

AE – Em 2010 sentiu que era o momento de partir em missão. Inicialmente ia por um ano e decidiu ficar dois…

CD – Estava disponível e na altura sentia que fazia todo o sentido, sentia-me chamada a fazer e viver isto. Era um salto completamente no escuro. Mas como não saltava sozinha, fazia sentido fazê-lo e arriscar. Não fui com tempo limitado e fiquei dois anos, porque no primeiro ano os voluntários no terreno também fazem um discernimento se é para continuar ou não. Também fazemos exercícios espirituais para decidir se é para continuar, se faz sentido continuar e porquê. Na altura percebi que Deus me chamava a continuar e que a missão em Benguela não estava terminada.

AE – O que fez em Benguela?

CD – Os Leigos estão no Bairro da Graça, que é um dos bairros periféricos da cidade de Benguela. Cada voluntário tem um projeto que se entrecruzam e o meu era coordenar um centro juvenil que tem várias valências – biblioteca de leitura e de estudo, formação informática, formação em Inglês. Também é um espaço em que outros grupos do bairro reúnem, por exemplo, grupo comunitário que era o projeto de outro companheiro de missão. Algumas aulas de alfabetização aconteciam em algumas salas do centro, também era um espaço onde um grupo de mobilização juvenil em que convidam vários grupos do bairro para fazer atuações, teatro, poesia, dança. Tínhamos uma atividade de cinema e, no fundo, tinha de capacitar a equipa a continuar como sempre sozinhos, sem a presença dos Leigos. O objetivo dos projetos dos Leigos é, no fundo, a capacitação de pessoas, a partir do que dizem que para eles é importante. Por isso, faz-se um diagnóstico antes.

AE – Nunca impor mas propor a partir da realidade que encontram?

CD – É propor a partir do que as pessoas nos dizem e, nomeadamente, dos grupos comunitários. Uma das apostas dos Leigos é a criação de grupos comunitários, pessoas de diferentes áreas que vivem no bairro, seja das várias Igrejas, diretores de escolas. Grupos de mamãs que vendem naa praças, quem têm negócio no bairro. Ou seja, é juntar os líderes e as forças de influência no bairro conversar com eles sobre o que acham que é importante, quais são as prioridades porque, infelizmente, os bairros em Angola têm muitas necessidades. Como qualquer bairro social, mas ali são todas urgentes, prioritárias. É preciso criar este espírito nas pessoas, dizerem o que querem, quais são as suas prioridades e que é possível fazer qualquer coisa com os recursos que têm.

AE – Ao mesmo tempo já se está a capacitar as pessoas? Dá-lhes essa confiança que elas são capazes.

CD – Exatamente, no fundo têm a experiência que alguém as ouve, é muito importante, que se interessa pelo que dizem e que digam que é verdadeiramente importante e não o que acham que os estrangeiros das organizações querem ouvir. Acabam por ter a experiência que é possível fazer alguma coisa sem milhões de dólares e sem recursos megalómanos e é possível transformarem o bairro, terem um papel positivo e fazer alguma coisa.

Esta falta de valorização e de experiência que as pessoas têm poder de transformar é muito importante ou tem sido um dos aspetos mais marcantes da missão. As pessoas vivem numa realidade em que têm uma privação de uma série de bens materiais básicos mas também de sonhar, perceber que podem fazer alguma coisa, que têm recursos. Não é preciso ter imenso dinheiro para investir e têm de ser elas só agentes de mudança, não têm de ser os de fora. Muitas vezes estão habituadas a que os de fora é que saibam tudo e esta experiência faz toda a diferença.

AE – Há quem diga que o voluntário precisa de perceber que não vai mudar África mas África é que o vai mudar. A Catarina revê-se nesta frase?

CD – Por um lado é verdade que todos voluntários fazem estas missões com vontade de mudar alguma coisa porque sentem, como também senti, as injustiças, as dificuldades. É verdade que mexem muito por dentro. Dá-se muito, mas recebe-se muito mais. Das duas partes há uma transformação, eu sinto que da minha é muito grande.

AE –Essa consciência de uma mudança, naturalmente, acontece?

CD – Tive maior consciência da minha transformação quando cheguei. O regresso também leva tempo. Vim com 32 anos: pensei vivi 30 anos em Portugal, não estou a voltar para uma coisa estranha. É preciso um reajuste porque é muito diferente viver com eletricidade ou água permanente. No sítio onde vivemos, que é muito bom, é uma casa que a Diocese de Benguela disponibiliza, é uma casa senhorial, de dois andares, sólida, muito boa para o contexto. Vivemos de uma forma muito simples, despojada e desprendida.

AE – No regresso há um embate com a realidade que já não estava habituada?

CD – Quando cheguei lembro-me que não era automático tirar água da torneira, vivi dois anos a ferver água porque não era suficientemente tratada para beber à vontade.

 

 

2017: Voluntariado em Atenas, na Grécia

AE – É em Portugal que perspetiva voltar a sair como fez rumo à Grécia?

CD – Voltei em 2012 e estive dois meses em Atenas com a Plataforma de Apoio aos Refugiados este ano, de julho a setembro. Por um lado, candidatei-me a este voluntariado porque me toca muito a realidade dos requerentes de asilo, das migrações forçadas, dos refugiados. O voluntário, como dizia, não consegue ser indiferente e tem experiência que fazer alguma coisa é importante por muito que às vezes possa ser pequena, pode ser só divulgar a realidade e notícias verdadeiras. Pode alertar outras pessoas para a consciência do que se passa. E isso é muito importante, às vezes vivemos adormecidos demais. Senti necessidade de fazer alguma coisa e de sair em missão, deslocar-me, e estar na realidade que as pessoas vivem. Antes juntei-me ao Graal em Portugal (movimento internacional de mulheres) e organizamo-nos para receber uma família do Iraque, senti o desejo e a intuição que podia ser útil na Grécia. Estive em Atenas com a Plataforma de Apoio aos Refugiados não só a coordenar os voluntários mas também no que fosse preciso. Também tive a sorte de trabalhar para um patrão que me permitiu fazer isto, pedi uma licença sem vencimento porque achava que ir três semanas, gastar as minhas férias não fazia muito sentido. Era chegar quase, não me aperceber de nada e vir embora. Como giro um programa de voluntariado, também fazia sentido. Foi duro, mas foi muito bom.

 

Cinco anos entre o voluntariado em Angola e a Grécia

AE –. Nestes cincos anos o que foi sentindo na sua vida, que ressonâncias teve da experiência em Benguela?

CD – A mudança que ocorre é impossível apagar e ninguém vem igual, porque viver numa realidade que não se pode comprar ganha a consciência clara que quando se muda de continente muda-se mesmo de continente. Quando se vive numa situação de miséria, muitas delas, e de pobreza extrema é impossível voltar e fazer uma vida igual á que se tinha antes.

AE – Em que é que sentiu isso concretamente?

CD – Para já é impensável ter uma carreira profissional e esquecer que sou voluntária. É impensável. Depois é impensável gastar dinheiro num iPhone, por exemplo, não porque não goste, acho espetacular, mas investir tanto dinheiro num telefone custa-me…

AE – A medida do dinheiro tem outra medida?

CD – Sim, tenho uma capacidade de desenrascar e viver com pouco que não tinha. Agora, de repente, não vou viver como vivi com os meus companheiros angolanos, nem pensar, porque gostava que saíssem dessas situações. Há uma história de um voluntário dos Leigos é mesmo gráfica; ele foi em missão para Timor e quando chegou via que as pessoas andavam descalças e ele começou a andar descalço, mas e eles disseram “Não faças isso porque me ofendes. Não ando descalço porque quero. Ando descalço porque não tenho capacidade para ter sapatos, mas quem me dera ter um par de sapatos”.

Isto é tão gráfico. Claro que gasto conforme o que me parece razoável para satisfazer as minhas necessidades básicas, mas custa-me muito gastar naquilo que aos meus olhos não é necessário para satisfazer uma necessidade. Não preciso ter um iPhone para estar ligada com as pessoas, existem muitos telemóveis no mercado.

AE – A adequação de comportamento vem de Benguela e depois quis concretizar, por uma questão de coerência, em Portugal?

CD – Sim, é verdade, é dar muito mais valor aquilo que para nós faz parte do nosso dia-a-dia e é tão automático que nem nos apercebemos. Por exemplo, valorizei a máquina de lavar roupa como nunca na vida, era das coisas que mais sentia falta em Benguela. Ter eletricidade permanente, ter comida no frigorifico conservada. Não ter que estar a alterar a vida toda porque é preciso ir ao mercado e só se pode fazer refeições para aquele dia, para aquela hora, porque quando não se tem eletricidade não dá para conservar. Dar valor à água, ter na torneira e beber sem filtrar. Uma série de coisas que são automáticas. Ter transportes públicos diversos. Depois a pessoa acaba por relativizar uma série de coisas, o autocarro, o metro estar atrasado cinco minutos…

AE – Quando regressou de Benguela o que fez concretamente. A nível profissional tinha alguma coordenada a seguir?

CD – Na altura percebi que a área da cooperação e do desenvolvimento podiam ser um casamento que me agradaria muito pelo serviço social. Comecei a ser voluntária e depois fui contratada para um projeto, também em Angola. Continuei a ir a Angola, ainda que a base fosse em Lisboa. Ia por temporadas e estive em Benguela e no Luena (Moxico) e trabalhei durante dois anos num projeto de formação de agentes de desenvolvimento comunitário, também muito interessante. Não é fácil ter fundos para estes projetos e não estávamos à espera de ter fundos, éramos uma equipa pequenina e tivemos de organizar a nossa vida.

A seguir fui para Inglaterra tentar a minha sorte e sentir que precisa de investir muito mais, estudar, e conhecer na prática. No terreno participamos bastante na construção e nas candidaturas que os leigos mandam para financiadores externos. Trabalhar para o Graal deu-me a consciência do trabalho que se tem a procurar financiamento, a fazer candidaturas. A perceber que o trabalho que queremos fazer não é a justificar o financiamento mas o financiamento justifica o trabalho.

AE – Esteve dois anos ligada ao Graal. Como surge o projeto de ir dois meses para a Grécia, como aparece na sua vida?

CD – O meu despertar para as migrações forçadas, para os requerentes de asilo e refugiados até surge em Londres. Estive 18 meses (entre 2015-2017) fazia voluntariado para ganhar experiência na área das ONGD e fazia voluntariado à noite, é uma cidade extremamente cara. Um amigo falou-me do Serviços Jesuíta aos Refugiados (JRS) em Londres. Achei interessante e candidatei-me porque queria continuar a fazer voluntariado e fui conhecer. Eles acharam muito interessante o facto de ter sido assistente social porque o meu papel, ainda que fosse uma vez por semana o dia inteiro, era fazer as entrevistas iniciais a quem recorria à JRS e também ter estado noutros contextos e contactos com culturas diferentes. E o facto de ter estado em Benguela com os Leigos (para o Desenvolvimento) no sentido de ter tido uma abertura muito maior.

AE – Visualizando Atenas, visualizando o que viveu lá durante dois meses. Que história, situação mexeu mais consigo ou ao ponto de pensar ainda bem que estou aqui?

CD – Todas as pessoas quem estive e tive o privilégio de conhecer e também conversar e estar são todas histórias impressionantes. Ouvi uma de uma mulher paquistanesa que fugiu com uma filha porque o marido foi morto à frente dela pela Al-Qaeda. São pessoas perseguidas e havia sempre este cuidado da PAR e JRS de não pronunciar o nome destas pessoas sem ser quando estamos com eles, quando estamos entre voluntários e não sabemos quem está a ouvir mesmo na Europa.

Esta mulher impressionava-me sempre, porque vivia num prédio da JRS. Ela estava há dois anos à espera de resposta do pedido de asilo. Tinha um alto cargo na Vodafone, estava a desenvolver o relacionamento entre Vodafone Grécia e Vodafone Paquistão e vivia no abrigo, porque tinha medo de viver sozinha, é uma pessoa com muita noção dos perigos e vive permanentemente em alerta. Apesar de tudo era muito alegre, simpática, super disponível, sempre bem-disposta e a filha era uma criança muito alegre, dinâmica. Isto impressionava-me bastante. Ela por um lado estava muito agradecida por estar na Grécia, não tinha nenhum ponto, não era chegar à Alemanha, ou à França ou Noruega. Já estava feliz por estar na Grécia. Sobretudo, quem era claramente perseguido se os pedidos viessem negados, e não eram sírios. Eles têm três vezes para recorrer do pedido negado, algumas das pessoas entram em desespero total. Muitas diziam “prefiro morrer na Grécia, mato-me a mim e aos meus filhos, do que voltar”. É a pessoa tomar consciência em que realidade as pessoas viviam e só o fantasma de terem de voltar preferem morrer num sítio estrangeiro. Voltar é que não, é ter consciência do que viviam a partir da consciência da vida das pessoas.

É preciso ganhar confiança. É verdade que vimos de culturas muito diferentes e a troca cultural, a partilha cultural é extraordinária. É ver que se calhar não somos tão diferentes e há muitos pontos em comum e que humanidade pode viver muito bem uma com a outra vindo de culturas e religiões diferentes. A maior parte das pessoas com quem estive era muçulmanas e muito abertas, muito pacíficas. Havia o cuidado de não tentar catequisar ou evangelizar, de ambas as partes. Quando chegamos somos “briefados” pela JRS para percebermos onde estamos e com é que estamos, que cuidados devemos ter. E também perceber o nosso papel enquanto voluntários no abrigo e na vida do dia a dia. Ouve-se muita coisa que é impressionante.

AE – O Papa coloca a tónica central da mensagem para o Dia Mundial da Paz 2018 nos refugiados: «Migrantes e Refugiados – Homens e mulheres em busca da paz». Esteve no terreno, consegue perceber que se proponha mais uma vez olhar para este drama dos refugiados?

CD – Penso que faz todo o sentido. É verdade que há muitos mitos à volta dos refugiados e migração forçada na Europa que é muito importante desmistificar porque os requerentes de asilo que estão a entrar na Europa são uma porção mínima dos que estão a fugir opara a Jordânia, para o Líbano. Metade da população libanesa são refugiados e não um país assim tão pequenino, é um território considerável e vivem em condições muito pior do que as nossas. O Papa ligar a questão das migrações forçadas à paz é muito importante não só para chamar a atenção aos conflitos armados na Síria, naquela zona, na Palestina também e olhar para outros que são conflitos antiquíssimos para os quais olhamos pouco, por exemplo na República Centro-Africana existe há décadas. Na Grécia encontrei muitos refugiados da República Centro-Africana, Congo.

Fazemos esforço por encontrar a paz na Síria, No Iraque, na Palestina mas também há muitos outros conflitos que matam milhares de pessoas, fazem outros milhares emigrar e fugirem e para os quais temos pouca atenção. Por outro lado, a paz não se constrói só por decisões governativas. Podemos fazer alguma coisa, pressionar os governos, e às vezes as pessoas acham que ir para a rua não vale de nada mas não é verdade. É verdade que  no meio do posicionamento europeu em relação aos refugiados, os únicos que salvam a dama é a sociedade civil. Os governos europeus tirando o português, o sueco e o espanhol fazem asneirada atrás de asneirada porque têm medo. Têm uma atitude muito protecionista. A Grécia que resolva o problema sozinha. A única parte que faz alguma são as Igrejas e a sociedade civil. O papel do cidadão é fundamental.

Os cristãos, os católicos não podemos deixar de nos preocuparmos com o nosso irmão, seja de que religião for, venha de que país vier: precisa de ser ouvido, protegido, que as pessoas acreditem nele, que nos importemos.

AE – Um cristão quando entende o nascimento de Jesus Cristo a mudança tem de acontecer naturalmente. A Catarina quando se encontra fisicamente, humanamente, com realidades tão diferentes como Benguela, Atenas não consegue ficar indiferente. É uma espécie de Advento, de nascimento, é uma apresentação tão radical da pessoa humana que não se pode ser indiferente a isso?

CD – Ser indiferente a isso seria não ser eu própria. É abrir-me à novidade que para nós já não é novo, o Natal ou o Advento, todos os anos acontece mas pode ser vivido como novidade. É conhecer um Deus em realidades que não se encontraria de caras, no meio do encontro de religiões, de pessoas que com resiliência e esperança arriscam a vida porque dão valor à sua vida, dos seus filhos e da sua família.

Os gregos sofrem imenso com a crise económica, nunca pensei que a pobreza, a miséria humana também se vê num país europeu que está numa crise brutal é difícil sair e apesar de tudo são os únicos que se abrem a acolher o muito mais desgraçados do que eles. Podiam fechar fronteiras mas abriram-nas, e os italianos também, mas é engraçado que são muito sensíveis às pessoas que vêm. Ao mesmo tempo, são pessoas com um ar que parece que não querem saber, mas os gregos com quem falei havia sempre alguém que tinha um irmão nas ilhas a defender os refugiados, ou que trabalhava e que tinha recebido imensos refugiados.

Mesmo em condições económicas e sociais optaram por abrir-se. Também é verdade que como, a opção da União Europeia era dar dinheiro, também é uma forma do governo grego ter dinheiro e usar como quiser. Mas a verdade é que abrem as portas e organizar estas pessoas dentro do seu território. É uma opção complicada e clara de abertura.

AE – É nessas circunstâncias que encontra o melhor de si?

CD – Tudo o que me desafia mais, que não é controlável, é um salto no escuro de confiança e de fé, é onde me conheço melhor. Tanto melhor de mim como, às vezes, o que não me agrada tanto. Acho que sim, é onde salta o melhor de mim e são experiências que ajudam a abrir a cabeça, o coração, aprender a perder para ganhar mais tarde. E ter o privilégio de conhecer pessoas que não conheceria, se não tivesse o desejo de ser útil e pôr os talentos a render.

Lígia Silveira

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