Papa destaca «profundas mudanças» na relação entre a tecnologia e o corpo

Cidade do Vaticano, 15 jan 2019 (Ecclesia) – O Vaticano apresentou hoje uma conferência sobre a chamada “roboética”, que vai decorrer no final de fevereiro, debatendo questões e potenciais da robótica ou da genética, por exemplo.

“Hoje é possível intervir muito profundamente na matéria viva, usando os resultados obtidos pela física, genética e neurociência, bem como pela capacidade de cálculo de máquinas cada vez mais poderosas”, escreve o Papa Francisco, na carta com que se associa à próxima Assembleia Geral da Academia Pontifícia para a Vida (APV), no seu 25.º aniversário de instituição.

O texto, divulgado esta manhã pela Santa Sé, tem como título ‘Humana communitas’ (A comunidade humana), convidando à reflexão sobre as novas tecnologias, definidas hoje como “emergentes e convergentes”.

“Trata-se das tecnologias de informação e comunicação, as biotecnologias, as nanotecnologias e a robótica. O corpo humano também é suscetível a intervenções que podem modificar não apenas as suas funções e desempenhos, mas também as suas formas de relacionamento, a nível pessoal e social, expondo-o cada vez mais à lógica do mercado”, refere o pontífice.

A APV vai promover, de 25 a 27 de fevereiro, no Vaticano, uma assembleia dedicada ao tema ‘Roboética. Pessoas, máquinas e saúde’.

O Papa sublinha que é necessário “compreender as profundas mudanças que são anunciadas nessas novas fronteiras”, a fim de poder orientá-las para o serviço da pessoa, “respeitando e promovendo sua dignidade intrínseca”.

“Uma tarefa muito exigente, que requer um discernimento ainda mais atento do que o habitual, devido à complexidade e incerteza de possíveis desenvolvimentos”, admite.

Francisco saúda os “numerosos e extraordinários recursos” que são postos à disposição da humanidade pela pesquisa científica e tecnológica, mas adverte que os mesmos “correm o risco de obscurecer a alegria que resulta da partilha fraterna e da beleza de iniciativas comuns”.

“A Igreja é chamada a relançar vigorosamente o humanismo da vida que surge da paixão de Deus pela criatura humana”, aponta a carta que assinala os 25 anos da criação da Academia Pontifícia para a Vida.

O organismo fundado por São João Paulo II tem novos estatutos de 2016, com o objetivo de fazer com que a sua reflexão tenha em conta “o crescente ritmo da inovação tecnológica e científica”.

Francisco denuncia o que classifica como “degradação do humano” e o paradoxo do “progresso”, falando num “estado de emergência”, que se estende ao plano ambiental.

O sistema económico e a ideologia do consumo selecionam as nossas necessidades e manipulam os nossos sonhos, sem levar em conta a beleza da vida partilhada e a habitabilidade da casa comum”.

O Papa propõe uma nova perspetiva ética universal, “atenta aos temas da criação e da vida humana.

A APC, com 151 membros dos cinco continentes, é elogiada pelo “compromisso com a promoção e proteção da vida humana em todo o seu desenvolvimento, a denúncia do aborto e da eliminação do doente”.

“Estamos plenamente conscientes de que o limiar do respeito fundamental pela vida humana está hoje a ser violado de forma brutal, não apenas pelo comportamento individual, mas também pelos efeitos das opções e acordos estruturais”, aponta Francisco.

A carta defende uma “bioética global”, com atenção às repercussões do meio ambiente na vida e na saúde, para “aprofundar a nova aliança do Evangelho e da criação”.

Em 2020, o Vaticano vai promover uma assembleia sobre a Inteligência Artificial.

OC

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