Paulo Rocha

O silêncio do Papa Francisco é interpelador. Ainda mais quando está diante de multidões, mulheres e homens que vibram com a sua passagem, mesmo que rápida, e com a força das suas palavras, potenciadas por amplificadores que as fazem chegar a amplos recintos.

No que diz respeito a lideranças religiosas, a força do silêncio tem no Papa João Paulo II uma referência maior no uso dessa linguagem comunicativa quando, em Fátima, de forma imprevista, permaneceu longos minutos diante da imagem de Nossa Senhora, em 1982.

O Papa Francisco, cheio de vigor nas palavras, desafiante nos gestos e estimulante nas mensagens, tem no calar uma arma poderosa. No Panamá, assim aconteceu na vigília, onde o silêncio se transformou em apelos dirigidos aos jovens que preenchiam um recinto adaptado a local de oração; e noutras circunstâncias, quando a liturgia e o rito encontravam uma interrupção na serenidade de Francisco, na pausa que dava densidade e significado a tudo o que estava ao seu redor.

Depois, no dizer de cada mensagem, o Papa Francisco não dita normas, mas sabe dialogar, com uma pessoa ou com um milhão de pessoas; não estabelece fronteiras da moralidade, mas estimula ao compromisso. Uma marca comum a todas as intervenções, nomeadamente as que dirigiu aos jovens de todo o mundo, na JMJ que decorreu no Panamá. Ao ser acolhido por milhares de raparigas e rapazes  na Cinta Costera, diante da imensidão do Pacífico, apelou à construção de pontes, à possibilidade da união entre diferentes e distanciou-se dos construtores de muros, de quem divide e amedronta; e incluiu todos os frágeis e marginalizados no nobre caminho da cruz. Depois, na vigília e na Missa no Campo São João Paulo II, diante de uma multidão que não esteve longe de um milhão de jovens, o Papa propôs-lhes o exemplo de Maria, desafiando-os a ser “influencers” ao estilo da Mãe de Jesus, traduzido num “sim” incondicional. Uma determinação para “agora”, não para depois, no compromisso com o sonho e a construção do amanhã.

Nas três notas sobre a JMJ do Panamá, a capacidade de rezar, celebrar e comunicar através da música tem de ser considerada. Porque os ritmos caribenhos estão na alma dos latino-americanos, que os manifestam em todas as pautas. Também por isso, foi notório o esforço para entoar alguns, poucos, cânticos em latim nas celebrações da JMJ.

As músicas em gregoriano são de notável beleza e traduzem como poucas a densidade do significado espiritual do texto cantado em cada melodia, mas só para quem se abeirou desse património musical e é capaz de incorporar naturalmente o seu significado, o que seria difícil de esperar numa multidão de jovens. Um sinal, talvez, de que a determinação em escutar os jovens, saída do Sínodo dos Bispos sobre a Juventude em outubro último, tenha ainda pernas para andar. Ou pelo menos vontades por concretizar. Um horizonte para 2022!

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