Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos

No âmbito de uma parceria com o KAB da Alemanha e a Acção Católica de Cabo Verde, a Liga Operária Católica, Movimento de Trabalhadores Cristãos (LOC/MTC) esteve em Cabo-Verde de 9 a 17 de janeiro.

Esta presença esteve marcada pela formação. Os membros da Acção Católica de Cabo Verde vinham manifestando desejo de conhecer melhor a Doutrina Social da Igreja e nomeadamente o último grande documento do papa Francisco, a Laudato Si. Durante dois dias, participaram nesta formação, 35 animadores dos grupos da Acção Católica de Cabo Verde. Trouxeram os seus testemunhos, a sua forma de participar, as suas dificuldades. Escutaram com o coração os desafios do papa Francisco e aprofundaram de modo especial a questão da água e do trabalho, as realidades mais difíceis na Ilha de Santiago. Reconfortante foi ainda a presença amiga e a reflexão do Cardeal Arlindo Furtado, bispo da Diocese. Agradecimentos às Paulinas, que nos ofereceram um exemplar da Laudato Si para cada um dos presentes e uma nota de tristeza por verificarmos que alguns membros não puderam vir, só porque não tinham dinheiro para pagar os transportes públicos. Dá que pensar e fica-nos um nó na garganta pois o dinheiro de dois cafés chegava para fazerem viagem de ida e volta.

A Acão Católica dá sinais de evolução pois, sem descurar a dimensão espiritual e evangelizadora, a sua mais-valia, vai-se abrindo a novos desafios tendo sempre a construção do homem integral como referência. Também reforçada com a recente nomeação de um novo assistente, que há 10 anos aspiravam.

Sendo já a quarta vez que a LOC/MTC se desloca a Cabo-Verde, no âmbito desta parceria, concretamente à Ilha de Santiago, pudemos testemunhar desta vez o esforço de empreendedorismo na agricultura, no pequeno comércio, nos serviços de proximidade, nos pequenos arranjos das casas de habitação. E a nível público a aposta no Turismo. Mas em todas as conversas a questão de fundo: a falta de chuva, referência para haver, ou não, trabalho para todos e causa de deslocação das populações do interior para a cidade, onde, nestas condições também não há trabalho para todos. No que respeita à chuva que ultimamente só tem aparecido com algum significado de 4 em 4 anos, também tem havido alguma evolução na construção de barragens para segurar as águas nos anos em que chove, no desenvolvimento de processos de rega gota a gota e no sistema de dessalinização da água do mar para poder ser usada no saneamento e na agricultura.

Como já é habitual fixámo-nos em Ponta d’Água, um bairro periférico da capital, com cerca de 12000 habitantes, em casa de uma das militantes da Acção Católica. Isso permite-nos conhecer de perto os perigos da criminalidade, contactar com as vendedoras da rua, tomar uma cerveja num bar sujo, caminhar em ruas cheias de pó e ver, pela diferença de qualidade das habitações, na mesma rua, a grande desigualdade de poder económico da população que resulta principalmente de desníveis salariais e de ter ou não ter algum emigrante na família. Nestes contactos estiveram também as escolas. Contactámos com professores e alunos que nos receberam e mostraram as escolas por dentro. Dá que pensar como é que se consegue ser educador em condições tão pobres, miseráveis mesmo: Turmas de 40 alunos, cadeiras e mesas defeituosas, cozinha sem espaço, sem arejamento e sem condições de higiene, comida servida nas salas de aula, falta de material escolar,… mas alegria generalizada em todos: professores, alunos, cozinheiras, administrativos. A terminar a visita ofereceram-nos o almoço. Comemos com os professores, na Biblioteca (não há refeitório nem para professores nem para alunos). Uma sopa, trazida num balde de plástico de 20 l (igual aos que usamos para a tinta) onde cada um tirava com a concha para o seu prato de alumínio e comia de pé. Mas que boa que estava aquela sopa de peixe.

Apesar disso, a aposta na educação continua e o compromisso de todos é evidente.

LOC/MTC

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