Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

No Domingo passado desactivei as contas que tinha em redes sociais como o Facebook e o Twitter. Terias coragem?

Nos últimos dois artigos de opinião que publiquei aqui na Ecclesia reflectia sobre um “minimalismo digital para um essencialismo espiritual” e sobre “a tecnologia da vida espiritual.” Esta decisão expressa uma forma coerente de dar mais espaço ao que tem mais significado na vida. Desde então tenho notado em diversas coisas que me têm feito pensar na influência da tecnologia sobre a vida espiritual.

Missa

Há 25 anos quando íamos à missa levávamos o telefone? Não. Se o fizéssemos seria um peso e não funcionaria porque tinha um fio. Por que razão é hoje mais necessário levar um telemóvel (ou vários) do que há 25 anos?

  • ”Porque alguém pode querer telefonar-me com urgência.”

Quantas vezes no último ano isso aconteceu?

  • ”Mas e se acontecesse?”

Este “e se” é o que muitos diagnosticam como FOMO (Fear-Of-Missing-Out) – o Medo-De-Perder-Algo. É um resultado directo da ansiedade que traduz uma das mudanças culturais introduzidas pelos telemóveis na vida social.

Que valor acrescenta à nossa vida espiritual estar sempre na posse de um telemóvel quando dedicamos um tempo exclusivo a Deus, seja na missa, oração pessoal ou comunitária?

Eu sei que não é fácil entender, ou aceitar, o que estou a argumentar, sobretudo para os mais jovens que não viveram numa época sem smartphones. Alguns podem mesmo considerar um exagero. É normal. Por isso, faço uma proposta simples. Durante um mês, quatro missas dominicais, não levem o telemóvel, ou numa família, apenas um leva (aquele que o sabe colocar no silêncio), e gostaria muito de saber como foi a experiência (podem enviar-ma, se quiserem, para miguel@miguelpanao.com).

Redes Sociais

Num excerto de um programa muito conhecido nos EUA, 60 minutes, dedicado ao hacking do nosso cérebro (Brain Hacking), muitos daqueles que trabalharam para os grandes do mundo digital como a Google, Facebook, entre outras, revelaram como o design das próprias apps está concebido para nos manter agarrados ao telemóvel. De todas as apps, as dedicadas às redes sociais são as maiores consumidoras da nossa atenção. Eu não fazia ideia.

Eu saí das redes sociais porque essas não traziam valor acrescentado à vida em geral, e especialmente, à vida espiritual. Há quem as utilize para espalhar a Boa Nova, mas estará ciente de que essa divulgação depende um algoritmo? É claro que, Deus não se restringe aos meios que inventamos (algoritmos) para se revelar, incluindo as redes sociais. Esse não é o problema.

Ser livre

Gradualmente tenho assistido à dificuldade de estarmos a sós com os nossos pensamentos, de estarmos diante dos outros e colocar de lado o telemóvel. Vejo a dificuldade em esperar sentado ou de pé sem tirar do bolso o pequeno écran que chama pela nossa atenção. Vezes sem contas. Vezes demais. Não notas?

Não. É suposto não notares. O consumo excessivo da nossa atenção, aprisionou as nossas mãos a uma tecnologia em que muitas companhias gastam milhões para manter preso o nosso dedo (a fazer scroll, swipe, touch) e o nosso olhar.

Seremos livres?

Sim. Seremos se alinharmos as novas tecnologias com os nossos valores humanos e espirituais. Se esse alinhamento incluir alguns serviços das redes sociais, óptimo, mas só saberemos isso de tomarmos cada vez mais e melhor consciência do nosso comportamento e pensarmos bem nos nossos valores.

Em última análise, tudo se joga aí, em tomarmos mais do nosso tempo para pensar naquilo que damos real valor na nossa vida e que nos faz mais livres e humanos, no serviço, na entre-ajuda, na escuta atenta, na palavra que consola, no abraço, no sorriso, no amarmos e sentirmo-nos amados. Não há uma app para isso, mas não precisamos de uma porque, afinal, não chamamos a isso… vida?

 

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