Vida Consagrada: Ser consagrado na saúde

Abraçar duas paixões que se complementam: cuidar a saúde física e a espiritual. Ser consagrado e, ao mesmo tempo, trabalhar na área da saúde, da enfermagem à medicina, dos cuidados continuados à reabilitação, nas alegrias e no sofrimento… Testemunhos de ‘vida consagrada na saúde’.

 

«Não me imaginei a trabalhar na área da saúde»

Natural da zona de Barcelos a irmã Fernanda Caetano rapidamente se apressa a esclarecer que sonhou ter a sua família mas, um dia, colocou tudo em causa e sentiu que algo a chamava.

“No ano internacional do voluntariado, em 2001, tive uma experiência em tempo de férias, através da juventude hospitaleira e fiz um campo de trabalho na casa dos irmãos São João de Deus, em Barcelos, e aquela dedicação aos doentes e a alegria teve um impacto na minha vida, que não soube explicar”, conta à Ecclesia a Irmã Hospitaleira do Sagrado Coração de Jesus.

No ano a seguir fez nova experiência, desta vez na comunidade das Irmãs Hospitaleiras, em Condeixa, onde “estava diretamente com os doentes” e sentiu que foram as “três semanas melhores” da sua vida, que a “ajudaram a ter interrogações e a procurar respostas.

Depois de um ano de discernimento e acompanhamento espiritual “arriscou” no ano seguinte e ingressou na congregação. Não tem formação na área da saúde, é animadora sócio-cultural, e atualmente integra a equipa da Casa de Saúde da Idanha, das Irmãs Hospitaleiras.

“Não me imaginei a trabalhar na área da saúde e não tenho formação na saúde” mas sempre houve exemplos de caridade na família.

No seu dia-a-dia a religiosa, de sorriso fácil, “procura dar alguma coisa ao doente que faça a diferença, também como irmã hospitaleira”, quer na saúde mental, na reabilitação, cognitiva e física.

Apresenta-se como “irmã Fernanda” e os doentes já não estranham, uma vez que está numa casa de saúde de religiosas.

A religiosa “não consegue separar o sofrimento” que vive a cada dia com os doentes, leva o sofrimento e as vivências de fé para si e ajudam-na “enquanto irmã hospitaleira”.

“São experiências e vidas de fé muito fortes e de entrega do seu próprio sofrimento, os doentes ensinam-nos muito e ajudam-me a viver a minha vida de consagrada”, conclui.

 

“Na minha aldeia havia casos de idosos sozinhos e a minha madrinha fazia de ‘bom samaritano’, dava ajuda aos doentes, chegámos a acolher um pobre… eu muitas vezes resmungava mas agora penso que tinha ali um exemplo do bom samaritano, o lema que encontrei na congregação”
Fernanda Caetano

“Pode haver alguma pessoa mais incomodada mas há outras que nos procuram por isso, independentemente da experiência de fé ou de encontro com Deus, temos de respeitar a diferença e não fazemos distinção”.
Fernanda Caetano

“Os dois (ser médica e religiosa) não são incompatíveis, quando entrei para a congregação vim completamente livre, era consoante o que fosse possível e desejável mas sabia que não era incompatível”.
Ana Luísa Castro

A religiosa foi médica de família em várias unidades de saúde e sentiu muitos casos de solidão que tentava colmatar com a escuta.

“As pessoas hoje em dia sofrem muito de solidão e perturbações depressivas e muitas vezes só precisam de ser ouvidas…” defende.

Atualmente colabora com o santuário de Fátima, onde integra a respetiva comunidade, e quando sente que há, por parte do doente, uma abertura para abordar a dimensão espiritual aproveita a oportunidade.    

“As pessoas vão sabendo que sou religiosa e vão abordando a questão , há uma vontade de incentivar a desenvolver esta relação com Deus, que é o que dá sentido à vida…

Ser médica é uma profissão e ser irmã é constante, faz parte da minha identidade, portanto sou sempre irmã!”, afirma.

«Médica é uma profissão, eu sou sempre irmã»

Também de sorriso fácil é a irmã Ana Luísa Castro, natural de Guimarães, desde pequena sonhava ser médica para ir para outros países ajudar, pois “via na televisão” a ajuda que era precisa.

“Eu era muito jovem, via o noticiário com os meus pais, e mostravam cenas dos campos de refugiados e de guerra e eu sempre sonhei ir como médica para estes campos para ajudar…”, contou à Ecclesia.

Quando frequentava o 12º ano sentiu precisar de uns dias para estar sozinha em reflexão, “num convento” e foi ali que nasceu a vocação.

Entretanto Ana Luísa Castro entrou na faculdade de Medicina e foi fazendo o discernimento, se a vida consagrada podia ser uma possibilidade.

“Os tempos foram de muita oração e vida de faculdade intensa, onde fiz muito voluntariado”, no Porto onde estudou.

O tempo de discernimento trouxe-lhe a certeza da complementaridade das duas paixões e tornou-se religiosa da Aliança de Santa Maria.

A irmã Ana Luísa Castro foi percebendo que “como médica ajudava ao nível físico” e, como consagrada, era uma presença diferente e “que procuro que transporte Deus”.

 

«De oleiro do barro a oleiro da vida»

“Para mim é uma graça de Deus ter esta oportunidade de ser consagrado e dá-me muita alegria; tenho uma forma de estar e de ser que é levar a esperança e alegria a cada fragilidade, a cada sofrimento que está dentro daquela pessoa e isso torna-me mais próximo e mais convertido”.
Jorge Dias

Ao lidar com o sofrimento, em muitas e variadas circunstâncias da vida, o irmão Jorge Dias, de olhar bem profundo, diz que a “vida ganha outro significado”.

Apesar de se sentir mais “enriquecido como pessoa” o religioso considera-se “um barro frágil” que se “emociona muito e às vezes tem de se esconder”, por exemplo, o final do dia é reservado ao seu quarto e a um exame de consciência.

Ao terminar a conversa com o irmão Jorge Dias ainda houve tempo para um apelo aos mais novos, uma sensibilidade que demonstra preocupação pelo futuro.

“Os jovens têm de experimentar estas casas, estas “catedrais de sofrimento”, porque são uma universidade em que se aprende a ser mais e mais pessoa”, apelou.

 

 

Foi de hábito negro que Jorge Dias, irmão de São João de Deus, apareceu para falar com a Ecclesia. De voz grave e calma começou por contar que aos sete anos trabalhava o barro, como os seus irmãos, na zona de Barcelos, de onde é natural.

“Via os meus irmãos mais velhos a trabalhar no barro e eu tentava também manipular mas, tinha à mistura um sonho que não partilhava em família, sonhava ser enfermeiro”, conta o religioso.

Tinha o exemplo da avó que era parteira, “enfermeira daquelas aldeias, chamada de noite e dia” para ajudar as mulheres que iam dar à luz e sentia admiração. E, numa madrugada, resolveu deixar tudo para trás.

“Com 16 anos fui convidado a ir à casa de saúde de São João de Deus, lá em Barcelos, para animar uma tarde com os doentes e quando entrei vi os irmãos enfermeiros, animados e acolhedores, e, de imediato, fiquei cativado”, recorda.

A inquietação de seguir uma vida de religioso foi dando lugar à certeza, queria entregar-se “aos doentes como enfermeiro, noutro sacerdócio” e, de madrugada, saiu de casa dos pais para ir ao encontro dos irmãos de São João de Deus.

É religioso há 25 anos e atualmente divide o seu dia-a-dia entre a prestação dos cuidados de enfermagem no Instituto São João de Deus, em Lisboa, e o estudo na Universidade Católica Portuguesa onde está a tirar a especialização em saúde mental e psiquiatria.

“Sou mais religioso que enfermeiro, o enfermeiro está dentro do religioso… Eu apresento-me sempre como irmão, aquele que está próximo, e a pessoa doente sente-se bem”, explica.

 

«Quero ser um pedacinho de Deus no meio do sofrimento»

A irmã Conceição Barbosa, natural da zona de Barcelos, é uma jovem Franciscana Missionária de Maria que trabalha como enfermeira no IPO de Lisboa.

Conheceu a congregação por intermédio de uma irmã sua e fez um retiro que lhe trouxe muitas questões e inquietações mas, o que queria mesmo, era ser professora de educação física.

 

“Queria seguir desporto, foi a área escolhida no secundário mas na altura os pais não gostaram… E uma amiga mais velha levou-me a conhecer a área da fisioterapia, virou-me a cabeça e mudei para a área da saúde”.
Conceição Barbosa

Com o desejo de se tornar religiosa foi pensando na área da enfermagem, uma tradição existente na congregação, que lhe começou a fazer mais sentido.

E, a uns meses de fazer 18 anos, “arriscou” entrar para o noviciado e depois tirou o curso de enfermagem. Passou por vários locais como religiosa e enfermeira mas está há sete anos no IPO de Lisboa, onde entrou através de um “concurso normal”.

“Trabalho por turnos como qualquer enfermeira e isso exige coordenação entre a vida comunitária, a enfermagem e a pastoral, mas exige um esforço, há um grande desgaste e cansaço que nem sempre é fácil de gerir”, confessa a religiosa.

O quotidiano naquele hospital não é fácil e a irmã Conceição tenta ser “um pedacinho de Deus no meio do sofrimento”, no entanto deixa muitas vezes tudo aquilo “dentro do carro” e partilha com a sua comunidade as alegrias, como forma de se reservar.

Esta religiosa é a única a trabalhar fora na comunidade de Lisboa das Franciscana Missionárias de Maria e tem de gerir o seu tempo.

De sorriso e conversa fácil esta Franciscana Missionária de Maria tem ainda um sonho por realizar: partir em missão.

“Gostava de partir em missão para um país mais longe, para poder ajudar com a enfermagem, ainda não se concretizou, mas não está fora de questão”, aponta.

 

“Quando estou no turno da noite faço por participar na missa de manhã na paróquia de Fátima (Lisboa), onde também estou integrada na pastoral da juventude”.

Conceição Barbosa

«Eu não distingo o irmão e o enfermeiro»

 

“O exemplo dos irmãos cativou-me, o evangelizar através do exemplo, participar com as pessoas e fazê-las ver que Deus as amava e queria o melhor para elas”.

 

António Nunes é natural de Vila do Conde e missionário comboniano, uma vocação que foi nascendo “através da leitura das revistas combonianas, nomeadamente a ‘Audácia’”, que o seu irmão assinava.

Endereçou uma carta para os contactos que apareciam nessa revista e foi sendo acompanhado por um sacerdote comboniano, “às escondidas dos pais”, mas não se via a ser sacerdote.

“Eu trabalhava numa fábrica têxtil e aquela inquietação estava lá, mas não me via padre, mas ser missionário, dizia-me muito, enchia-me o peito de ar, fazia sentido”, recorda o irmão António Nunes.

Participou de um retiro e chamou-o à atenção a vocação e o exemplo dos irmãos, uma outra forma de consagração que depois concretizou.

Começou o curso de enfermagem com 30 anos, em Viseu, já depois de estar nos combonianos e como forma de servir melhor nas missões; assim que terminou o curso partiu para o Sudão e trabalhou em várias áreas da enfermagem.

“Fui para o Sudão, há 12 anos, para um hospital no meio do mato, que não estava no mapa, lá fiz de tudo… Uma das coisas que fazia era num programa para os leprosos e tinha de ir a aldeias distantes levar a medicação”, conta.

De olhar sereno conta as muitas dificuldades que viveu primeiro no Sudão, depois na altura dos bombardeamentos e em que o país ficou dividido. Nos últimos tempos esteve na capital do Sudão do Sul e deu aulas de enfermagem uma “experiência que lhe exigia dar o exemplo a cada dia” e “aprender a cultura deles”.

O irmão António Nunes não consegue distinguir o enfermeiro e o irmão, considera-se o “enfermeiro irmão”.

O missionário comboniano, de 47 anos, está agora de regresso a Portugal, para ajudar alguns dos seus colegas da congregação “os que estão idosos e doentes”, na casa de Viseu.

“Começo a sentir estranho quando regresso ao meu país e os idosos são postos de parte, a juventude não pode ter medo da velhice, é uma realidade que nos toca a todos e ser velho é uma riqueza”, conclui.

 

“Naquela zona identificam o enfermeiro como irmão, assim como as enfermeiras são irmãs, por causa da tradição inglesa das enfermeiras serem freiras; a nós chamam-nos irmãos”.
António Nunes

Todos estes testemunhos dão mote à conversa do Programa Ecclesia, na Antena 1 da rádio pública, de 04 a 08 de fevereiro, às 22h45.

SN

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